Têm-me surgido muitas imagens, a propósito das minhas leituras – cada vez mais ameaçadas de bloqueio (ainda agora a União Europeia anunciou para dia 8 o corte do acesso a um dos meus sites preferidos, o Strategic Culture Foundation) – sobre o estado do mundo, mas hoje pensei numa que me pareceu particularmente irónica: o Trump sentado a uma mesa com um jogo de matrioskas, em que a boneca mais pequena é a Ucrânia, a do meio a União Europeia e a maior os Estados Unidos da América. Reparem: a Ucrânia, que se quisesse teria evitado a guerra com a Rússia, foi empurrada para ela pelos Estados Unidos para que estes a pudessem defender e, como pagamento, saquear os seus recursos naturais. Absurdo, não é? Vamos olhar a coisa a outra escala: o Trump força os estados europeus, via UE, a aumentarem os seus gastos de defesa com a NATO, primeiro para 3% do PIB e, em escalada de delírio, para 5%, isto enquanto se desliga dos compromissos da NATO, ou seja, recebe tanto mais quanto menos “serviços” presta – sendo que, e agora vou abrir um parêntesis, o Plano Marshall (todos sabemos que para os EUA não há almoços grátis) deixou determinado que dois terços do investimento europeu em armamento pesado e nuclear teria de ser aplicado na indústria bélica dos EUA e o terço restante das armas teria de ter, na sua composição, peças americanas. É um facto e ainda está em vigor. Voltando atrás: os EUA, através da NATO, meteram a União Europeia na guerra da Ucrânia, e a pagá-la, e a fomentar uma guerra contra a Rússia, em nome da defesa dessa mesma União Europeia. É um pouco como o arrumador de automóveis a quem pagamos para que proteja o nosso automóvel dele próprio – com a ligeira diferença de que o arrumador de automóveis é o elo mais fraco da cadeia. Mas o padrão, portanto, repete-se, numa escala maior. Fast-forward, agora, para construirmos a boneca americana: o Trump impõe tarifas a todos e a mais algum, no mundo, contribuindo para um isolamento dos EUA – odiados por cada vez mais países, a ponto de inimigos íntimos como o Japão, a Coreia do Sul e a China se terem recentemente aliado – e para um mais do que provável crescimento grave da inflação interna, que, aliado a factores conexos, deve remeter o povo americano a uma desigualdade sem precedentes e a índices de pobreza e desprotecção arrepiantes. Isto acontece porque o Trump é, na verdade, um ministro dos negócios “estrangeiros”, sendo este “estrangeiros” uma representação conceptual daqueles de quem ele cuida: os oligarcas e, na melhor das hipóteses, o tecido empregador americano, que perfaz 3% da população. E a nata destes empregadores é apátrida, são “estrangeiros” porque, na realidade, já se estão a cagar para os EUA enquanto país, enquanto entidade identificada numa história comum e plasmada numa constituição. Ora, a prática governamental americana atingiu o paroxismo da sua agenda cínica, embora venha de longe: se 3% é o tecido empregador, 97% é a fatia ocupada pelos potenciais empregados. Então porque é que estes, tendo a esmagadora maioria dos votos, não destronam os 3%? Porque os 3% sobrevivem e proliferam pagando aos governantes. São os seus doadores, aqueles de quem estes precisam para prosperar e subir na vida – ou, em fases de desespero, para escapar ao linchamento. Ora, no epicentro da economia capitalista, não haveriam os eleitos de trabalhar para quem lhes paga? Espera-se que o exemplo venha de cima… Assim, democratas agitam as bandeiras LGBTQ+, verdes, liberais, etc., etc., enquanto os republicanos hasteiam as machistas, bélicas, autoritárias, por aí fora, para se mostrarem distintos e verdadeiramente alternativos uns aos outros, mas na política prática pouco diferem. Digamos que a escolha popular será entre ser violado com ou sem vaselina. Para os governos, o importante é funcionarem eficazmente como airbags dos gigantes financeiros. Mas retomando a ideia inicial: neste sentido, o de operar “de fora”, o Trump já pôs a boneca americana ao olhar nu de todos os que, entre nós, estão pelo menos um bocadinho atentos. E isto permite-nos, para o efeito de um cartoon ou algo assim, consumar imageticamente a plena ironia de o maior ícone do excepcionalismo americano estar a jogar um jogo russo, colocando a Ucrânia dentro da Europa e esta dentro dos EUA. Talvez, para levar as pessoas a rir em vez de chorar, fizesse sentido incluir o Putin a vir pelas costas do Trump, com uma boneca maior nas mãos.
Enfim, são palermices de que vou lembrando, como quem tenta, com um pequeno farrapo de humor, tingir a tragédia.
O Strategic Culture Foundation foi cortado já há algum tempo também era um dos meus sites preferidos, a UE que se diz democrata está a agir como o fascismo agia só podíamos ler e ouvir o que eles queriam, como se fosse a UE a dona da verdade, a verdade como costumo dizer enquanto existirem dois homens na terra a duas verdades a de cada um deles.
O Strategic Culture Foundation foi cortado já há algum tempo também era um dos meus sites preferidos, a UE que se diz democrata está a agir como o fascismo agia só podíamos ler e ouvir o que eles queriam, como se fosse a UE a dona da verdade, a verdade como costumo dizer enquanto existirem dois homens na terra a duas verdades a de cada um deles.
Ele há textos “palermas” que vale bem a pena serem lidos. Força Marcos!